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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Traduzir-se


 
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
 
Ferreira Gullar


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Talvez



Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma

flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém

soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,

rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

Pablo Neruda


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Viagem



O sono é uma viagem noturna:
o corpo horizontal no escuro
e no silêncio do trem, avança,
imperceptivelmente avança… Apenas o
relógio picota a passagem do tempo.
Sonha a alma deitada no seu ataúde:
lá longe
lá fora
no fundo do túnel,
há uma estação de chegada
(anunciam-na os galos agora)
há uma estação de chegada com a sua tabuleta ainda
toda orvalhada…
Há uma estação chamada…
AURORA!


Mário Quintana

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Felicidade




"Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada:
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa, que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim : mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos."


 Vicente de Carvalho

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pedro Lyra

 Fortaleza-CE (1945)

Como outras manifestações culturais alternativas, aparecidas nos anos 60, o poema–postal surgiu e teve como pioneiro entre nós, em 1970, o poeta Pedro Lyra. Elaborando cartões postais em que unia um breve texto poético à imagem escolhida, da qual o texto muitas vezes funcionava como legenda, Lyra dava início a uma técnica bem própria de divulgar a poesia. Ainda que presa a uma vertente do chamado poema–processo, dele se distanciava ao admitir o emprego de versos, num contexto que poderia dispensá–los, e formando um discurso bastante conciso, no qual a economia de vocábulos se responsabilizava pela maior objetividade da mensagem.


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Reinvenção




A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.



Cecília Meireles

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Escolhas...




Ou isto ou aquilo
 
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo. 


Cecília Meireles


Ou isto ou aquilo, Editora Nova Fronteira, 1990 - Rio de Janeiro, Brasil

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O Bicho


Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa;
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Manuel Bandeira

Rio, 27 de dezembro de 1947

As fotos são do fotógrafo Álvaro Riveros, chileno de nascimento e brasileiro por opção, que viu sua fascinação pelos tipos invísíveis da metrópole carioca se avolumar quando saía em direção às pautas jornalísticas. ”É a minha tentativa de entender o momento em que vivemos. Minha expressão é a imagem. É a partir dela que tento compreender o mundo“, diz Álvaro, que coleciona mais de 1.000 fotos, clicadas desde o ano 2000, doze meses depois de chegar ao Brasil. ”No Chile, também há moradores de rua, é claro, mas no Rio era impossível, para mim, não me atormentar pelas imagens que eles me proporcionavam“.

O Meu Olhar é Nítido Como um Girassol


O meu olhar é nítido como um girassol,
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e a esquerda
E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei Ter o pasmo essencial que tem uma criança
Se ao nascer, reparasse que nasceras deveras...

Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo

Creio no mundo como um malmequer
Porque o vejo, mas não penso nele
Porque pensar é não compreender

O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia, tenho sentidos...
Se falo na natureza não é porque a amo,
amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama.
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência
E a única inocência é não pensar.

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Metade


Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.


terça-feira, 13 de outubro de 2009

Na Ilha Por Vezes Habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago

in PROVAVELMENTE aLEGRIA, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1985, 3° Edição


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Dia do Nordestino



Exaltação ao Nordeste

Eita,Nordeste da peste,
Mesmo com toda sêca
Abandono e solidão,
Talvez pouca gente perceba
Que teu mapa aproximado
Tem forma de coração.
E se dizem que temos pobreza
E atribuem à natureza,
Contra isso,eu digo não.
Na verdade temos fartura
Do petróleo ao algodão.
Isso prova que temos riqueza
Embaixo e em cima do chão.
Procure por aí a fora
"Cabra" que acorda antes da aurora
E da enxada lança mão.
Procure mulher com dez filhos
Que quando a palma não alimenta
Bebem leite de jumenta
E nenhum dá pra ladrão
Procure por aí a fora
Quem melhor que a gente canta,
Quem melhor que a gente dança
Xote,xaxado e baião.
Procure no mundo uma cidade
Com a beleza e a claridade
Do luar do meu sertão.

Luiz Gonzaga de Moura

Parabéns a todo esse povo batalhador!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Arte é Imprescindível!


Assim como o camponês cria a arte na natureza
O artista alimenta a alma com os
frutos da beleza
O pão alimenta o corpo, a arte alimenta os sentimentos
Um vem dos prados da terra
e o outro, dos pensamentos
E se não pode nos faltar, a comida, o alimento
A arte é imprescindível, na vida, a cada momento
Venha em palavras doces, em sons, formas ou cores
A arte é o calmante, que apazigua as nossas dores
A beleza é um lugar, que estamos a buscar
Porque lá estão as chaves que vão no
s libertar
A beleza é divina, é conquista, fascinação
Beleza é arte, a arte
é evolução
Que expressamos calmamente
Como a lapidação de um diamante
Realizando intensamente
Os sonhos mais delirantes
Enigmaticamente, m
oldando a certeza:
A manifestação da arte, todos tendem a seguir
Pois está na naturez
a, a maior expressão da beleza
A perfeição concretizada, a que sonha
mos atingir...

Autor Desconhecido

domingo, 27 de setembro de 2009

Mundo Grande


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.

Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.

Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma, não anuncia nada.
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! Vai inundando tudo...
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos – voltarão?

Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)

Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.

Outrora viajei
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.

Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
– Ó vida futura! Nós te criaremos.

Carlos Drummond de Andrade

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Felicidade


Se tudo na vida é relativo. . .
Relativa também é a idéia que cada um faz da felicidade.

Para uns, felicidade é dinheiro no bolso, cerveja na geladeira, roupa nova no armário.

Para outros a felicidade representa o sucesso, a carreira brilhante, o simples fato de se achar importante, (ainda que na verdade as coisas não sejam bem assim).

Para outros tantos, ser feliz é conhecer o mundo, ter um conhecimento profundo das coisas da Terra e do Ar.

Mas para mim, ser feliz é diferente.
Ser feliz é ser gente, é ter vida.
Que como dizia o poeta:
“É bonita, é bonita, é bonita...”

Felicidade é a família reunida.
É viver sem chegada, sem partida.
É sonhar, é chorar, é sorrir...

Felicidade é viver cercado de amor, é plantar amizade, é o calor do abraço daquele amigo, que mesmo distante, lembrou de dizer: “Alô”.

Ser feliz é acordar as cinco da matina, depois de ter ido dormir as três da madrugada, com sono e pra lá de cansado, só pra dar uma pontinha da cama, para o filho dormir.

Ser feliz é ter violetas na janela, é chá de maçã com canela, é pipoca na panela.

É um CD bem méla-méla, para esquentar o coração.
Ser feliz é curtir sol radiante, frio aconchegante, chuvinha ou temporal.

Ser feliz é enxergar o outro (e sabe-se lá quantos outros, que cruzam nossa estrada).

Ser feliz é fazer da vida, uma grande aventura, a maior loucura, um enorme prazer.

Fênix Faustine

A Música está Submersa em Todas as Coisas...


A música está submersa em todas as coisas...
É a alma que canta em tudo que é vivo, em tudo que é vida!
Há música em tudo, até mesmo no silêncio,ecoando os acordes do tempo!
Nada como se embriagar de música, na alegria ou na tristeza!
Ela celebra, acorda a alma, muda a sintonia!
Meu ópio diário para libertar a dor e celebrar a vida!
Que a música nos eleve...!!

O tempo? Pura sinfonia...

Poesia? Música em movimento...

Raiblue

Raças e Cores


No Brasil, Senhor, não há raças
há cores, tonalidades
todos os matizes
numa hierarquia de cores, de classes
-preconceito, sim
(em casa, velado na rua)
segregação, nem tanto-
no processo de embranquecimento.


Raça, só dos animais inferiores.

Uma mestiçagem devoradora
-cruzamentos
até o infinito.

Uma nova etnia
fundindo ressentimentos
-da escravatura
-dos desterros
-das imigrações
em que se aprende
a dormir em rede
a despir-se
em que o dendê e a pimenta
não são mais privilégio de índios e africanos.

A luta é entre o arcaico
e o moderno,
entre o patriarcal
e o comunitário, porque,
negros, índios e mestiços
continuam pobres.


Antônio Miranda
Extraído da obra TERRA BRASILIS.


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

No Mistério do Sem-Fim


No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

Tão Sutilmente


Tão sutilmente em tantos breves anos
Foram se trocando sobre os muros
Mais que desigualdades, semelhanças
que aos poucos dois são um,
sem que no entanto

deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
O filho que se faz, uma árvore plantada,
O tempo gotejando no telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
O pó de um cotidiano desencanto...

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
Que uma em outra pode se trocar,
Sem que alguém de fora o percebesse nunca.

Lya Luft

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Com Licença Poética


Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

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