quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Desafiando o Tempo

Eles provam que resistência não tem limite de idade!

Urubus e Sabiás


"Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa , e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

— Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...

— Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá."

Rubem Alves

O texto acima foi extraído do livro "Estórias de quem gosta de ensinar — O fim dos Vestibulares", editora Ars Poetica — São Paulo, 1995, pág. 81.

Horta Móvel

Aprenda a fazer!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Música nas Escolas


Agora é lei! Criança na escola terá que cantar e tocar instrumentos! As escolas do ensino básico - públicas ou particulares - no Brasil inteiro serão obrigadas a oferecer aula de música.

Segundo especialistas, a música faz o aluno aprender melhor as outras matérias.
E para mostrar como a música pode mudar a vida de uma criança, o músico Lucas Ciavatta mostra um método de educação musical criado por ele em 1996.
O Bloco do Passo é um grupo de percussão e canto dirigido por ele e composto por jovens entre 17 e 22 anos. A força e a criatividade da música do bloco vêm impressionando e surpreendendo o público que o assiste. O que causa maior admiração é a variedade e a riqueza das propostas musicais apresentadas com precisão e qualidade. O repertório do grupo inclui ritmos, como o samba, o maracatu, o congo, o alujá; cantos, como Emboladas e Incelenças; e experimentações que investigam as relações de tempo e espaço. “O Passo é um modelo de regência com os pés. Cada um é o seu próprio maestro”, disse.
Confira o vídeo!

www.opasso.com.br

Cascas de Banana


A vida é complicada mesmo. Ninguém precisa seguir o lema do finado Chacrinha, a quem se atribui a frase "eu não vim para explicar, vim para complicar", ou "confundir", o que dá na mesma. A vida se confunde e complica por si mesma, sem necessidade de apelos e palavras de ordem.

Guimarães Rosa, tal como o Abelardo Barbosa, que gostava de afirmações definitivas, dizia que "viver é muito perigoso". Com o devido respeito ao criador de "Sagarana", e igualmente ao homem da Buzina, prefiro a complicação ao perigo do Rosa e à confusão do Chacrinha.

Podia dar exemplos sobre a complicação humana, exemplos atuais – o tarado austríaco, os travestis do Ronaldo. Mas prefiro contar a história daquele eremita que se retirou da vida profana e passou a viver junto a um pequeno rio. Comia todos os dias uma banana e jogava a casca no rio. Num momento de fraqueza, em sua prece matutina, reclamou do Senhor da vida que levava, comendo banana todos os dias.

Após muito meditar e invocar santo Antão, padroeiro dos eremitas, tomou a decisão que lhe aparecia como a melhor. Resolveu mudar de lugar, seguindo sempre o curso do mesmo rio, até que encontrou, quilômetros à frente, um outro eremita, que comia todos os dias as cascas de banana que ele jogava fora. Não se tratava de um campeonato para ver quem era mais asceta do que o outro. De alguma forma, os dois se bastavam com o que tinham: o primeiro com a banana, o segundo com as cascas da banana.

O encontro trouxe uma complicação inesperada para os dois eremitas que haviam decidido levar uma vida sem complicações.

Voltaram à cidade e encararam a vida com mais humildade, fazendo parte da complicação geral, ampliando-a com uma quitanda, onde vendiam bananas sem casca e cascas sem banana.

Carlos Heitor Cony

Publicado em 06/05/2008
GAZETA DO POVO

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Elogios e Críticas


Por Içami Tiba

Um bom e merecido elogio eleva a alma, aumentando a auto-estima, enquanto uma severa crítica destrutiva congela a pessoa, minando a auto-estima.

Tanto elogios quanto críticas chegam de outras pessoas, reforçando ou contrariando o que uma pessoa avalia de si mesma. Não costuma ser bem visto um autoelogio, mas uma autocrítica é estimulada em uma sociedade onde se pretende que as pessoas procurem melhorar sempre. Mas não há como impedir que uma pessoa sinta um bem estar quando faz algo que ela mesma aprove e aprecie. Raramente uma pessoa deixa de fazer uma autocrítica, principalmente quando ela tem o hábito de reavaliar a sua participação seja em onde e como for.

Esta autoavaliação pode ser entendida como se a pessoa tivesse dentro de si um juiz que lhe avaliasse em cada pensamento, sentimento ou ação. Este juiz que habita o interior de todas as pessoas um dia já esteve fora. São os pontos de vista dos seus pais (professores, parentes ou quaisquer outras pessoas) que lhes sejam importantes e significativas. Se estas pessoas foram saudáveis educadores, isto é, souberam dosar bem os elogios e críticas, o juiz é bastante justo. Desenvolve-se o juiz interno como se desenvolve a língua que os circundantes usam.

Em geral, pais muito severos que só criticam desenvolvem um juiz autocrítico severo, mas um fraco autoelogiador e pais que só elogiam desenvolvem um juiz permissivo que avalia como positiva qualquer ação que venha a praticar. Nem tanto à terra, nem tanto ao mar, mas neste caso, o equilíbrio não está no meio, mas o juiz ser mais crítico ou elogiador conforme a necessidade da própria criança a ser educada.

Nem todas as crianças nascem iguais. Umas já nascem mais sossegadas e outras mais agitadas. Em geral as mais sossegadas aprontam menos, pois pensam antes de fazer e levam menos broncas que as agitadas que acabam fazendo sem pensar. Broncas e críticas a crianças mais tranqüilas tornam o seu juiz interno muito autocrítico. Elogios e afagos a crianças impulsivas constroem um juiz interno muito permissivo e quase delinqüente.

Imaginemos o que acontece com uma criança que já tenha seu juiz interno mais crítico que elogiador receba do professor uma crítica, um apelido, uma gozação, uma ironia, ou uma desqualificação do professor durante a aula, ou dos colegas formadores de opinião fora da sala de aula...

Há críticas que ajudam e outras que atrapalham. As que ajudam são as verdadeiras, mas critica-se a ação e não a pessoa. Chamar um aluno de "vagabundo" por não ter feito uma lição é julgar o aluno e não a sua falha.

É preciso ter elevadíssima auto-estima para não se abalar com apelidos pejorativos colocados por colegas conhecidos e/ou conviventes.

Existe em família um costume horrível: criticar a pessoa querida por desejar que ela melhore. Tão horrível quanto elogiá-la em tudo, mesmo que não mereça o elogio, pois, assim, pensam os elogiadores, "quem sabe ela melhore..." Isso pode acontecer com pais que por algum motivo acabam sendo professores dos seus próprios filhos. O que acontece com estes pais tem um nome: envolvimento emocional.

Tanto o elogio quanto a crítica não devem ser sobrecarregados com outros significados além dos seus próprios. Assim, principalmente os educadores não devem misturar suas emoções, afetos, preferências e rejeições sobre seus elogios e críticas aos seus alunos, sob o risco de descaracterizar suas funções educativas.

Içami Tiba é psiquiatra e educador. Escreveu "Família de Alta Performance", "Quem Ama, Educa!" e mais 25 livros.

Plantas que Melhoram o ar dos Ambientes

Bromélia

-Bromélia:
Abosrve metais pesados e gás de cozinha
- Gérbera, begônia e crisântemo:
São indicados contra fumaça de cigarro. Recomenda-se utilizá-los nas salas e nos quartos

- Cactos:
Barram as ondas eletromagnéticas. A dica é colocá-los perto do microondas e dos televisores

- Orquídea-borboleta:
Indicada para equilibrar a umidade nos ambientes

- Lírio-da-paz e samambaia:
Absorvem quase todo tipo de poluente

- Azaléia e antúrio:
Combatem poluentes como o amoníaco. São indicados para cozinhas e banheiros

- Lírio e flor-do-natal:
Por funcionarem como filtros de ar, são recomendados para cômodos pouco ventilados

Lírio- da- Paz

Lindolf Bell

Lindolf Bell
"Menor que meus sonhos não posso ser"


Manuel Bandeira do Brasil

Todos fizeram seus versos para o poeta.
Também vou fazer os meus.

Quando um poeta morre
os outros fazem silêncio
ainda que ninguém tome conhecimento.

Onde estiver,
a estrela da tarde
estará no horizonte da palavra,
atrás do teatro Carlos Gomes
de meus pensamentos vãos,
e me lembrarei de ti, Manuel
Bandeira da saudade.

Onde estiver,
estarei na sacada do mundo
esperando a tua bênção
no vento noturno,
na tua galeria intemporal
de poeta que fez versos
como quem ama.

Onde estiver,
sei que pairas
entre o coração que sabe
e o ruído dos automóveis
da rua quinze de novembro e a chuva
de minha cidade temporal,
que visitas sem que ninguém saiba
e abençoas sem resposta esperada.

Todos fizeram seus versos para o poeta.
E o tempo custou a chegar
para meus versos,
afundados que jaziam no rio Itajaí,
antes da estrela da manhã
ainda que tardia,
onde os esqueci.

quando um poeta morre
os outros morrem também.

Mas nasce um canto
que fica
e fica um verso que nasce,
poeta Manuel, Leão leal.
Mas um canto de morte inteira,
Mas um verso da vida inteira.

E eu queria te dizer,
Manuel Bandeira do Brasil
e verde vale de azul anil,
que achei uma palavra fora do dicionário,
uma palavra estrelada de nome:
MANUELANCOLIA.


Lindolf Bell nasceu em Timbó (SC) no dia 02 de novembro de 1938. Em 1944, sua mãe iniciou sua alfabetização em alemão. De 1945 a 1952 estudou em sua terra natal Em 1953, matriculou-se no Curso Técnico em Contabilidade de Blumenau, concluído em 1955. Voltou a Timbó. Em 1958, serviu à Polícia do Exército. Em 1959, no Rio de Janeiro (RJ), estudou Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, curso que não completou. No ano seguinte, retorna a Timbó. Em 1962, iniciou seus estudos no Curso de Dramaturgia na Escola de Arte Dramática de São Paulo, no qual se formou em 1964.

Publicou seu primeiro livro de poesia, Os Póstumos e as Profecias, em 1962. Participou de diversos eventos: na Expressão de Novos Poetas, com poemas-murais, na biblioteca paulistana Mário de Andrade; do Movimento da Catequese Poética; foi autor do roteiro cinematográfico A Deriva para o filme experimental de Juan Seringo; declamou poemas no Show Contra, no Teatro Ruth Escobar, São Paulo SP. Em 1968, viajou para os Estados Unidos, onde integrou o grupo brasileiro no International Writing Program, na Universidade de Iowa. No seu retorno, passou a viver em Blumenau, onde foi professor de História da Arte na Fundação Universidade Regional. Participou na I Pré-Bienal de São Paulo, em 1970, com poemas-objetos.

O autor faleceu no dia 10 de dezembro de 1998, na cidade de Blumenau (SC).

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O Poema do Andarilho

I

Menor que meu sonho
não posso ser

Mil identidades secretas.
Mil sobras, sombras, mil dias.
Todas palavras e tudo.
Barco de ambigüidade,
sôfregas palavras.
De todas contradições, desencontros,
dos contrários de mim,
andarilho da flecha de várias pontas, direções.
Dos outros seres
que também andarilham.

Pois menor que meu sonho
não posso ser

Andarilho
de ervas sutis
crescidas de noites luzes
becos latinos frêmitos Andes ilhas.
Andarilho
de santos falidos, feridos
de vaidade.
Dos frutos da segurança vã,
vã beleza de repente solidão.

Feitiços, laços, encantamentos.
Prodígios, Tordesilhas, ressentimentos.
Andarilho de perder pele, asa e uso,
mariposa da lua difusa do amanhecer.
Andarilho
de paisagens precárias do sentimento
guardado a sete chaves,
não fotografável,
nem desvendável em câmaras escuras,

secretas torturas,
ou à luz de teus olhos surpresos, presos
nos meus olhos, ilhas.
Pois menor que meu sonho
não posso ser


II

Empoleirado em minha gaiola de ineficiência,
andarilho.
Longe de grandes e confortáveis salas
da subserviência, andarilho.
Transitivo, substantivo, adjetivo.
Solto na correnteza do medo, da instabilidade
de tudo, na multidão de afetos.
Eu, claro enigma: sete palmos de terra,
sagrado sopro de todo o sentimento.
Eu, quebrado espelho d’água de Narciso
e fogo de Orfeu entre a paixão
e o definitivo tempo.

Eu estranho a maioria das vezes
na própria terra do poema
onde me sedimento, acidento,
me desencaminho, me aninho,
me enovelo em trama de pouco, em menos,
em quase nada
e mesmo assim andarilho.

Pois menor que meu sonho
não posso ser

...................................................


V

Passa o tempo.
Como passa, passou o tempo.
oh! frase feita,
inútil consolo e alívio.

Passo este tempo que me passa.
Passo pontos de interrogação,

helespontos, helespantos.
Passo a ponte, o poente.
Deliberadamente passo
mas sem pressa,

passo a passo.
Passo os fusos horários
e passeio entre o sonho
e as palavras.

Também entre as obscenas por decreto.

Pois menor que meu sonho
não posso ser.


VI

Atravesso compêndios, currículos,

apostilas de silêncio
e minha sombra pisada
por outra sombra
também feita de tudo
e nada
Atravesso simulacros
e arranco o lacre da palavra

Pois menor que meu sonho
não posso ser

atravesso o avesso
E meu barco de travessias
é a palavra terra
cercada de água por todos os lados

Pois menor que meu sonho
não posso ser

Estou do lado de lá da ilha
Aqui disponho de mim
e conheço meu próprio acesso
Aqui conheço a face inversa da luz
onde me extravio
e não cessarei jamais

Pois menor que meu sonho
não posso ser.


Lindolf Bell

O CÓDIGO DAS ÁGUAS – 1984

Acordo Brasil - Vaticano


Várias coisas me irritam profundamente no governo Lula. A despeito de considerar que seu governo é muito, mas muito melhor do que a maioria dos seus antecessores, considero também que poderia ter avançado muito mais do que avançou. Mais pra frente retorno a esse ponto sobre o que considero os limites do PT como partido e do governo Lula como um todo. Quero me concentrar hoje no acordo firmado em novembro de 2008 entre o governo brasileiro e o Vaticano sobre a presença e papel da Igreja Católica em nosso país. Esse acordo precisa ser ratificado pelo Congresso Nacional e no último dia 12 de agosto, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou a sua constitucionalidade e o processo seguirá para ser apreciado por outras comissões. Porém, com a constitucionaliade aprovada, as portas estão escancaradas.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores o Brasil era o único país com maioria católica que não havia ainda firmado acordo desse tipo com o Vaticano. Aqui, logo de saída, vaí uma questão: e precisava mesmo firmar isso? Ou tais acordos são, na verdade, um mecanismo que o Vaticano vem implementando mundo a fora como forma de evitar a inevitável decadência quantitativa no número de fiéis católicos? Nos EUA, por exemplo, país de formação religiosa predominantemente calvinista, a Igreja Católica é circunscrita às colônias latinas (italianos, hispânicos em geral) e a setores da população de origem irlandesa. No resto do continente americano o catolicismo vem perdendo espaço em rítimo vertiginoso para outras religiões cristãs. Em de 2007 a Conferência Geral do Episcopado Latino Americano reunida no Brasil lançou o sinal de alerta sobre o declínio rápido não apenas no número de fiéis católicos mas do próprio prestígio da Igreja frente aos povos desta região. É interessante ler como um representante do alto clero enxerga o problema:

«O número dos católicos diminuiu na última década como nunca antes na história, uma vez que se multiplicam as comunidades pentecostais e as seitas. Aumentou a indiferença e a descrença; esta última, em vários países, entre muitos jovens. A urgência de sair a evangelizar se tornou imperiosa», afirma o cardeal Francisco Javier Errázuriz, na última edição (50) da revista «HUMANITAS», da Universidade Católica do Chile, conforme postagem no blog http://blog.bibliacatolica.com.br/tag/america-latina/

Históricamente constituída desde a ocupação portuguesa, a maioria católica que agora perde espaço foi montada a partir da catequização forçada dos índios e africanos escravizados, aculturados e devidamente catolicizados através de séculos de exploração do seu trabalho e impedimento do exercício das suas religiões de origem. Não é uma história realmente edificante, exceto para aqueles que consideram ser a religião católica "superior" aos "primitivos" e "selvagens" cultos animistas de índios e negros.

A despeito de ter tido formação católica (fui batizado em Aparecida, fiz primeira comunhão e crisma), estou absolutamente distante desse tipo de visão que predominou por aqui até bem pouco tempo atrás. Há apenas sessenta anos, os cultos afros e mesmo os evangélicos eram solenemente perseguidos pela polícia e terreiros e templos eram fechados. Foi necessário uma proposta do deputado comunista Jorge Amado (sim, o escritor), nos trabalhos da Assembléia Constituinte de 1946, aprovada, para garantir a liberdade de culto no Brasil. Foi preciso o Partido Comunista propor tal liberdade pois no que dependesse da alta hierarquia católica da época.....

Voltando ao acordo, alguns artigos são de dúbia interpretação mas há um em particular que irrita profundamente:

Artigo 11
A República Federativa do Brasil, em observância ao direito de liberdade religiosa, da diversidade cultural e da pluralidade confessional do País, respeita a importância do ensino religioso em vista da formação integral da pessoa.
§1º. O ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discriminação.

Por esse acordo caberá ao Estado Nacional garantir o ensino religioso nas escolas públicas, ainda que seja em caráter não obrigatório e respeitando a diversidade religiosa. O primeiro problema está no próprio sentido da proposta: afinal de contas, qual é mesmo a necessidade de ter ensino religioso em escola pública? Escola é local de ensino-aprendizagem da ciência, do conhecimento acumulado pela humanidade e não espaço para ensinar dogmas de qualquer crença que seja. Religião é dogma, é fé e em vários momentos, preconceito puro! E aqui, caros (as) leitores (as) me refiro a todas as religiões. Cada uma com seu mundinho fechado de conceitos, normas, cultos, textos sagrados e disputando, muitas vezes a tapa - literalmente - as consciências das pessoas.

Uma das grandes conquistas oriundas do século XVIII foi o rompimento gradual com o enorme poder que a Igreja Católica - e as protestantes em geral daquela época - possuia sobre a vida das pessoas. Daquele tempo para cá imensa maioria das "verdades" estabelecidas a ferro e fogo pelo clero católico foram sendo impiedosamente demolidas pelo desenvolvimento científico. Sobrou o que mesmo? A defesa da paz, da harmonia entre as pessoas, a proteção aos mais humildes? Ora, e por acaso é preciso ter alguma religião para respeitar esses princípios? Acaso é necessário que sacerdotes de quaisquer credos inundem as escolas públicas para disseminar esses princípios básicos de convivência humana entre nossos filhos e filhas? Os meus aprendem isso na minha casa, convivendo comigo e com minha esposa e acredito que a imensa maioria das famílias façam o mesmo.

Alguém pode argumentar que o mundo é violento e o povo precisa de religião no coração. Já ouvi esse argumento várias vezes e em todas as vezes dei a mesma resposta: as religiões sempre foram fontes de guerras, opressão dos povos submetidos ao poder de sacerdotes de diversos quilates e os dois mil anos de vida da Igreja Católica são a maior prova disso. O mundo é violento há milênios e as religiões nunca ajudaram a diminuir em nada a violência humana. Ao contrário!

Religiosidade - ou ausência dela - é questão de foro íntimo e se alguém quiser ter ensinamento religioso que busque-o nas igrejas, terreiros, templos, etc, da religião que adota e não nas escolas públicas. E aqui cabe outra pergunta: como farão para garantir o respeito efetivo à diversidade religiosa que hoje está presente na maioria das escolas brasileiras? Vão colocar padres, pastores evangélicos, pais e mães de santo, monges budistas, médiuns espíritas, para dialógar com os estudantes e, ecumenicamente, orientá-los para o caminho do bem? Estou meio grandinho para cair nessa pataquada de ecumenismo. A igreja católica quer, na verdade, livre acesso às escolas para garantir a transmissão da sua visão de mundo, dos seus valores religiosos. Não estou fazendo juizo de valor sobre os valores católicos. Simplesmente não são os únicos, e, insisto, quem quiser criar seus filhos no seio dessa religião, que os encaminhe para os templos próprios, que, aqui entre nós, já tem bastante por aí.

Congresso Nacional: não cometa essa bobagem!

Fonte:
http://palavrasaotempo.blogspot.com/

domingo, 13 de setembro de 2009

O Meu País

Zé Ramalho

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que crianças elimina
Que não ouve o clamor dos esquecidos
Onde nunca os humildes são ouvidos
E uma elite sem deus é quem domina
Que permite um estupro em cada esquina
E a certeza da dúvida infeliz
Onde quem tem razão baixa a cerviz
E massacram - se o negro e a mulher
Pode ser o país de quem quiser
Mas não é, com certeza, o meu país

Um país onde as leis são descartáveis
Por ausência de códigos corretos
Com quarenta milhões de analfabetos
E maior multidão de miseráveis
Um país onde os homens confiáveis
Não têm voz, não têm vez, nem diretriz
Mas corruptos têm voz e vez e bis
E o respaldo de estímulo incomum
Pode ser o país de qualquer um
Mas não é com certeza o meu país

Um país que perdeu a identidade
Sepultou o idioma português
Aprendeu a falar pornofonês
Aderindo à global vulgaridade
Um país que não tem capacidade
De saber o que pensa e o que diz
Que não pode esconder a cicatriz
De um povo de bem que vive mal
Pode ser o país do carnaval
Mas não é com certeza o meu país

Um país que seus índios discrimina
E as ciências e as artes não respeita
Um país que ainda morre de maleita
Por atraso geral da medicina
Um país onde escola não ensina
E hospital não dispõe de raio - x
Onde a gente dos morros é feliz
Se tem água de chuva e luz do sol
Pode ser o país do futebol
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

Um país que é doente e não se cura
Quer ficar sempre no terceiro mundo
Que do poço fatal chegou ao fundo
Sem saber emergir da noite escura
Um país que engoliu a compostura
Atendendo a políticos sutis
Que dividem o brasil em mil brasis
Pra melhor assaltar de ponta a ponta
Pode ser o país do faz-de-conta
Mas não é com certeza o meu país

Tô vendo tudo, tô vendo tudo
Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo


Entre nós e as palavras...


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny

Salvation Mountain

Este vídeo gravado e editado por Lucasberg mostra alguns amigos na "Salvation Mountain", uma pequena elevação de 15 metros de altura localizada no deserto ao sul da Califórnia. Em meio a uma tempestade de raios, o grupo aparece neste curto trailer que é visualmente incrível. A trilha sonora dá o toque perfeito ao vídeo. Em tempo: a "Salvation Moutain" é obra do visionário americano Leonard Knight, que há mais de 23 anos esculpe e pinta à mão o lugar com mensagens de amor e de louvor a Deus. O lugar virou ponto turístico e é hoje um Tesouro Nacional dos EUA.

Fonte: Blog Jandira Feijó

Showdown with Zeus -- a lightning storm timelapse from Lucasberg (Joey) on Vimeo.

sábado, 12 de setembro de 2009

Leia...

Ilustração- Violeta Lópiz

"Leia vagarosamente, brincando com as palavras, sem querer chegar ao fim, como se estivesse fazendo amor com a pessoa amada. A leitura nos leva por mundos que nunca existiram e nem existirão, por espaços longínquos que nunca visitaremos. É desse mundo diferente, estranho ao nosso, que passamos a ver o mundo em que vivemos de uma outra forma."
Rubem Alves


"Os meus filhos terão computadores,
sim, mas antes terão livros!
Sem livros, sem leitura, os nossos filhos
serão incapazes de escrever
- inclusive a sua própria história!"
Bill Gates

Conhece-te a ti mesmo - mesmo?

"Conhece-te a ti mesmo"
Sócrates

A figura de Sócrates é como um divisor de águas na Filosofia Antiga, tanto que os filósofos anteriores a ele são tradicionalmente chamados de pré-socráticos.

De fato, com Sócrates há uma mudança significativa no rumo das discussões filosóficas sobre a verdade e o conhecimento. Os primeiros filósofos estavam preocupados em encontrar o fundamento (arké) de todas as coisas. Sócrates, por sua vez, está mais interessado em nossa relação com os outros e com o mundo.

Curiosamente, Sócrates nada escreveu - e tudo o que sabemos dele é graças a seus discípulos, particularmente Platão. Sócrates teria tomado a inscrição da entrada do templo de Delfos como inspiração para construir sua filosofia: Conhece-te a ti mesmo.

Para compreendermos o sentido dessa frase, segundo o filósofo francês Michel Foucault (1926 - 1984), devemos inscrevê-la em uma estratégia mais geral do cuidado de si.

Ou seja, o que Sócrates pregava era que nós devemos nos ocupar menos com as coisas (riqueza, fama, poder) e passarmos a nos ocupar com nós mesmos. Poderia objetar-se: com que propósito deveria ocupar-me comigo mesmo? Porque é o caminho que me permite ter acesso à verdade. Mas que tipo de verdade? Obviamente não é uma verdade qualquer, tal como a fórmula química da água, mas a verdade que é capaz de transformá-lo no seu próprio ser de sujeito.

É esse ato de conhecimento, capaz de promover nossa autotranscendência, de que fala Sócrates. Conhecer a mim mesmo para saber como modificar minha relação para comigo, com os outros e com o mundo.

  • Como ter acesso à verdade?

Tal modificação para ter acesso à verdade, contudo, não é um ato puramente intelectual. Ela exige, por vezes, determinadas renúncias e purificações, das quais Sócrates é um exemplo.

Sócrates dizia ter recebido de Deus a missão de exortar os atenienses, fossem eles velhos ou jovens, a deixarem de cuidar das coisas, passando a cuidar de si mesmos. Tal atitude o fez dedicar-se inteiramente à filosofia e à prática dialógica (uma forma especial de diálogo, denominada maiêutica) por meio da qual ele fazia com que seu interlocutor percebesse as inconsistências de seu discurso e se autocorrigisse.

A atitude de Sócrates questionava os valores da sociedade ateniense, razão pela qual seus inimigos o levaram ao tribunal, onde foi julgado e condenado à morte. Sua morte, porém, não impediu que a questão do cuidado de si se tornasse um tema central na filosofia durante mais de mil anos - e chegasse a influenciar alguns filósofos modernos e contemporâneos.

A questão central do cuidado de si é que jamais se tem acesso à verdade sem uma experiência de purificação, de meditação, de exame de consciência - enfim, através de determinados exercícios espirituais capazes de transfigurar nosso próprio ser.

Dito de outro modo, o estado de iluminação, de descoberta da verdade, não é produto do estudo, mas de uma prática acompanhada de reflexão constante sobre minhas ações, atitudes - e de como posso modificá-las para me tornar uma pessoa melhor. É como se a vida fosse uma obra de arte em que nós vamos nos moldando, nos aperfeiçoando no decorrer da existência.

  • A difícil busca da verdade

Atualmente, estamos distantes dessa perspectiva socrática do cuidado de si. A ciência moderna está preocupada com a produção e acumulação de conhecimentos.

Mas quando nos perguntamos: para quê acumulamos e produzimos conhecimento? A resposta é simplesmente: para aumentar infinitamente nosso conhecimento. Entramos, assim, numa corrida sem fim, em que nunca nos questionamos se isso realmente está trazendo os benefícios prometidos.

Claro que a tecnologia traz inegáveis benefícios, mas não parece que as pessoas, atualmente, estejam mais felizes. Pode-se alegar, no entanto, que não é papel do conhecimento e da ciência promover a felicidade humana - e que, talvez, conhecimento e ciência tenham a única função de contribuir para a concentração de poder e dinheiro nas mãos de alguns uns poucos.

Sócrates, porém, via a busca da verdade com o um caminho de ascese, pois, quando cuidamos de nós mesmos, modificamos nossa relação com os outros e com o mundo.

Mergulhados em preocupações com a aparência e o consumo, pensamos estar cuidando de nós mesmos, quando na verdade estamos nos perdendo em meio às coisas. É preciso conhecer a si mesmo para não perder-se. Claro que você não vai encontrar toda verdade em si mesmo, mas, pelo menos, a única verdade capaz de salvá-lo.

Josué Cândido da Silva
  • O que há para ler

Do filósofo Michel Foucault, a obra A hermenêutica do sujeito, Editora Martins Fontes, São Paulo, 2004.

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